Ilustração: Jo Fevereiro
Estava a meio quarteirão de casa, andando meio apressado pela calçada, quando vi um caracol cruzando lentamente o meu caminho. Atenção para o que vou dizer agora: o caracol era tão grande que parecia um fusca. Não estou brincando, é verdade! Posso garantir que nenhuma substância afetava minha percepção naquele momento. Ele tinha pelo menos um palmo de comprimento e transportava sua moradia que mais parecia um desses triplex com 5 vagas e espaço gourmet que os folhetos de pré-lançamento costumam anunciar nos Jardins.
Fiquei paralisado, mesmo porque, enquanto aquele colosso de antenas colossais se arrastava indiferente, meu caminho permaneceu realmente interrompido. Tive um pouco de medo e não me envergonho por confessar, o bicho era estranho mesmo e eu não imaginava que isso existisse, se imaginasse, seria numa ilha do arquipélago de Java, perto de onde vivem os lagartos de Comodo e outras criaturas pernósticas. Mas ali, atrás do Maksoud Plaza, era como se de repente a fronteira entre a realidade e a ficção tivesse sido rompida. Naquele instante não me pareceu impossível que ele simplesmente me cumprimentasse pelo nome e seguisse o seu caminho; que revelasse uma profecia catastrófica a meu respeito; que me pedisse para levá-lo ao meu líder, ou que cuspisse em mim uma gosma mortal.
Assim que minha confusão mental se dissipou, num reflexo adquirido na contemporaneidade, adotei aquele ar de indiferença que aprendemos a fazer diante da diversidade, por mais diversa que ela seja, e passei a olhar se não havia alguém filmando minha reação para colocar no YouTube. Reparei se não tinha nenhum fio de nylon esticado na calçada e se os lentos movimentos do ser não revelavam alguma sincronia robótica. Uma outra vez fiquei procurando o miado de um gatinho que parecia em apuros e descobri um celular escondido na grama do jardim emitindo o som, enquanto isso o porteiro e o servente do prédio riam da minha cara. Dessa vez, não. Não havia nada.
Livre do pavor imediato e natural diante do desconhecido e do pavor secundário e social do ridículo, acompanhei o imenso caracol até que ele chegasse ao mato que almejava, com a ansiedade típica de um caracol. Esperei até que ele se perdesse no meio da relva. Depois esperei um pouco mais, olhando o rastro úmido deixado na calçada. Segui, então, o meu caminho, eufórico e maravilhado, como uma criança que viu mesmo uma coisa que nenhum adulto vai acreditar.
Passo todos os dias pelo mesmo lugar e, por mais apressado que esteja, sempre diminuo a passada para ver se encontro de novo o caracol. Não encontro, mas enquanto procuro por ele, penso que aquele bicho estranho deve estar onde queria estar, sem ter ido de pressa e sem ter ido muito longe.
Faço desse pensamento a lição que aquele magnífico caracol me ofertou.






