Estivemos em Brasília no último fim de semana. Em sua primeira viagem de avião, aos oito meses de idade, a Leila conquistou o público: dormiu quando o choro de criança aterrorizaria os já nervosos passageiros e circulou pelo corredor no meu colo, risonha e expressiva quando o tédio começava a tomar a aeronave.
Era só uma visita de família. Acabou sendo muito mais, inclusive nesse aspecto. Partilhamos experiências e desejos, trocamos angústias, confissões e preciosas receitas culinárias.
No domingo obtive licença e incentivo para visitar, só, mais um velho amigo desencontrado.
Ícaro, uma vez, quando eu tentava embarcar de Havana a São Paulo, com excesso de bagagem, estava atrás de mim na fila e salvou minha pele ao saber que eu estava contrabandeando apenas livros e alguns charutos. Fiquei agradecido e reconheci sua autoridade perante a segurança cubana. Trocamos telefones e ficamos amigos. Só depois soube que se tratava do polêmico engenheiro que soprou ao Lúcio Costa e ao Oscar Niemeyer a extravagante ideia de que a capital do Brasil deveria ser projetada como um avião. Isso não aparece nos registros históricos, talvez tenha acontecido numa mesa de bar. Mas não desconsidero a possibilidade de que a narrativa seja apenas fruto da inquieta imaginação de alguém que carrega a sina de ter o nome Ícaro.
O alcóolico e genial engenheiro Ícaro, de 93 anos de idade, recebeu-me, em sua bela casa do Lago Sul, como a um viajante dos tempos. Fez-me beber mais licor do que a minha licença autorizava. Falou-me da Flip, de Pitágoras, de realidade aumentada e do Calendário Maia. Depois disso conduziu-me a um porão, que é sua oficina, onde prometeu-me uma experiência inenarrável. Não acreditei. Mas estava enganado.
O que tento descrever, como anunciado, não é mesmo possível de narrar, mas insisto mesmo assim:
Ícaro me levou a uma câmera contígua a sua oficina. Entrei numa sala meio esférica e toda branca, onde só havia um grande e maravilhoso tapete iraniano Nahin azul. Ele pediu para que eu me sentasse no tapete e esperasse. Fiz como ele mandou. Logo, como num cinema 360 graus, em volta de mim apareceram imagens da catedral de Santa Sofia e da Mesquita Azul de Istambul. Na sequência, o tapete em que estava sentado começou a se mover para cima como se num elevador. As imagens tornaram-se dinâmicas e o tapete também. Perdi a sensação da gravidade e o tapete começou literalmente a voar por paisagens indescritíveis, não sei se do presente, do passado ou do futuro. Em pouco tempo senti-me como Aladim sobre o tapete mágico. Voei sobre desertos desconhecidos e metrópoles contemporâneas. Não fui capaz de perceber jogos de imagens projetadas e/ou engenharias hidráulicas. Voei como sempre quis voar, sobre um tapete como o das mil e umas noites. Melhor do que se tivesse asas.
Voei, finalmente sobre a Brasília e o Brasil de hoje e sobre eles mesmos em construção. Voei sobre os outros e sobre mim mesmo.
Não soube esclarecer, depois, ao Ícaro, qual foi minha experiência.
Obrigado querido Ícaro.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Gestos Impensados
Não sei porque ainda prezo tanto a razão. Não que ela não me ajude, não que não me salve muitas vezes. O problema é que devotar-se incondicionalmente a ela pode ser tão automático e nocivo quanto acender mais esse cigarro. Não é sempre que um, ou outro, nos traz desfrute. Muitas vezes é exatamente o contrário: vem a angústia e vem a tosse; vem o arrependimento e a dor de cabeça.
O Renascimento e o Iluminismo podem ser os grandes responsáveis por essa obsessão que temos alguns de nós pela racionalização. Mas o fato de não sermos tantos com esse vício tem sua parcela de responsabilidade. Fazer parte de um time reduzido também exerce lá o seu fascínio. Se é para ser doente, é bem mais romântico uma boa tuberculose, do que um leve princípio de pneumonia.
A história, contudo, pode explicar sem necessariamente nos esclarecer. O sintoma pode ser fruto não da influência de Descartes, mas da nossa particular insegurança quanto às outras formas de conhecer o mundo, o que faz da razão um distinto, indispensável e legítimo aliado. É como se preferíssemos os certos equívocos do pensamento, aos riscos - para o bem e para o mal - da nossa incompreensível "intuição".
Uma vez, num café em São Petesburgo na Rússia, numa das Noites Brancas descritas por Dostoievisk, um grande amigo me disse: "já reparou que, por mais que planejemos, as coisas sempre saem diferentes?" Não, eu ainda não tinha reparado. Só agora começo a reparar.
Fazer o que eu não tinha pensado; falar o que eu não tinha ensaiado, com quem eu não tinha elegido; vestir o que eu não tinha combinado, para ir aonde eu não sabia; viver, enfim, o que eu não tinha roteirizado, tudo isso também funciona. Pelo menos, tanto quanto o contrário. Ou seja, a vida não está nem aí para a minha programação, mesmo que de vez em quando coincida com ela!
Em resumo, enquanto acendo outro cigarro, desejo me livrar do vício de pensar em tudo. Um gesto impensado, agora sei, pode mesmo tornar minha vida muito mais gostosa.
O Renascimento e o Iluminismo podem ser os grandes responsáveis por essa obsessão que temos alguns de nós pela racionalização. Mas o fato de não sermos tantos com esse vício tem sua parcela de responsabilidade. Fazer parte de um time reduzido também exerce lá o seu fascínio. Se é para ser doente, é bem mais romântico uma boa tuberculose, do que um leve princípio de pneumonia.
A história, contudo, pode explicar sem necessariamente nos esclarecer. O sintoma pode ser fruto não da influência de Descartes, mas da nossa particular insegurança quanto às outras formas de conhecer o mundo, o que faz da razão um distinto, indispensável e legítimo aliado. É como se preferíssemos os certos equívocos do pensamento, aos riscos - para o bem e para o mal - da nossa incompreensível "intuição".
Uma vez, num café em São Petesburgo na Rússia, numa das Noites Brancas descritas por Dostoievisk, um grande amigo me disse: "já reparou que, por mais que planejemos, as coisas sempre saem diferentes?" Não, eu ainda não tinha reparado. Só agora começo a reparar.
Fazer o que eu não tinha pensado; falar o que eu não tinha ensaiado, com quem eu não tinha elegido; vestir o que eu não tinha combinado, para ir aonde eu não sabia; viver, enfim, o que eu não tinha roteirizado, tudo isso também funciona. Pelo menos, tanto quanto o contrário. Ou seja, a vida não está nem aí para a minha programação, mesmo que de vez em quando coincida com ela!
Em resumo, enquanto acendo outro cigarro, desejo me livrar do vício de pensar em tudo. Um gesto impensado, agora sei, pode mesmo tornar minha vida muito mais gostosa.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Abracadabra
As palavras já foram consideradas mágicas, quer dizer, detentoras de poderes mágicos. Em agrupamentos humanos remotos, pessoas economizavam até na divulgação de seus próprios nomes para evitar feitiços e sortilégios. Sob o efeito da palavra ouvida, guerreiros já provocaram e finalizaram guerras. Até hoje ainda persistem truques para dizer o nome de um morto sem correr risco de ônus mágico, "que deus o tenha". "Saúde" anida se profere gratuitamente a quem espirra.
Por alguma razão, quem sabe a profusão de palavras más, ou talvez a melancolia de quem costuma ser rigoroso demais consigo mesmo, estamos mais suscetíveis, em nossos tempos, à maldição do que à bendição. Ecoa mais nos nossos ouvidos e corações a injúria e a ofensa, do que o elogio e as palvras de afeto, perdão e compreensão.
Lembramos no nosso dia da única pessoa que não respondeu ao nosso bom dia e de nenhuma das outras que o retribuíram com sorriso. Da que nos sonegou palavra e não das que nos agradeceram por qualquer pequena gentileza.
Sobrepesamos a crítica, mas o reconhecimento não movimenta os pratos da balança. Ficamos incomodados com o que talvez seja uma ironia maldosa, mas não nos permeia com a mesma facilidade uma evidente e bondosa homenagem. Não nos casamos mais cada vez que ouvimos "eu te amo", mas estamos prontos a nos separarar ao primeiro "tenho dúvidas quanto ao meu amor".
Fica então a seguinte pergunta: se as palavras ainda carregam magia consigo - e acho que carregam sim -, porque não apreciar mais e melhor os seus bons encantos?
Por alguma razão, quem sabe a profusão de palavras más, ou talvez a melancolia de quem costuma ser rigoroso demais consigo mesmo, estamos mais suscetíveis, em nossos tempos, à maldição do que à bendição. Ecoa mais nos nossos ouvidos e corações a injúria e a ofensa, do que o elogio e as palvras de afeto, perdão e compreensão.
Lembramos no nosso dia da única pessoa que não respondeu ao nosso bom dia e de nenhuma das outras que o retribuíram com sorriso. Da que nos sonegou palavra e não das que nos agradeceram por qualquer pequena gentileza.
Sobrepesamos a crítica, mas o reconhecimento não movimenta os pratos da balança. Ficamos incomodados com o que talvez seja uma ironia maldosa, mas não nos permeia com a mesma facilidade uma evidente e bondosa homenagem. Não nos casamos mais cada vez que ouvimos "eu te amo", mas estamos prontos a nos separarar ao primeiro "tenho dúvidas quanto ao meu amor".
Fica então a seguinte pergunta: se as palavras ainda carregam magia consigo - e acho que carregam sim -, porque não apreciar mais e melhor os seus bons encantos?
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Uma boa lembrança do alto
Uma vez acordei numa cabine de trem no Vale da Osta na Itália e me deparei com um senhor de chapéu e bengala sentado no banco da minha frente. Tomamos, juntos, um mágico café solúvel e ficamos logo grandes amigos. Ele me falou de sua participação na Primeira Guerra, do Patuá, dialeto da região, e me explicou sobre os telhados das casas. Não me lembro bem da explicação, mas não esqueço do reflexo do sol nascente na neve que se depositava naqueles telhados, pareciam casas de maçapão banhadas com calda de caramelo. Eu também estava nascendo, tinha só 18 anos.
Descemos, ambos, em Courmayer - acho que era esse o nome da vila -, eu não tinha destino, ele visitava uma filha. Ele me convidou para o almoço. Eu, mesmo sem destino, já era arredio com os convites, agradeci declinando. Ele entendeu, compreendeu.
Identificando-me, então, como andarilho do mundo, o que me chocou e fascinou, disse que os andarilhos ganhariam mais se tivessem disposição para escalar as montanhas. Nessa hora apontou para uma delas. Falou que, do alto, a solidão é a mesma, mas o silêncio é maior e visão mais ampla. Eu não disse nada mas, no mesmo instante, me convenci que deveria subir ao alto da pequena montanha que o seu indicador indicou.
Quando nos despedíamos o improvável se fez presente. Perguntou meu velho amigo qual era o meu nome, não, meu sobrenome. Ao responder, lancetei seus olhos, dos quais escorreram, não, jorraram lágrimas.
Surpreendeu-me o velhinho explicando que, agora sim, nosso encontro fazia sentido, pois sua maior perda durante a guerra tinha sido o seu grande amigo Molon.
Subi com sacrifício aquela montanha. Lembro-me da fadiga e dos pedaços de gelo que mataram a minha sede.
Lembro-me do menor ruído que já não ouvi e de uma visão que, em sua amplitude, tornou invisível, naquele momento, meu mais querido amigo.
Descemos, ambos, em Courmayer - acho que era esse o nome da vila -, eu não tinha destino, ele visitava uma filha. Ele me convidou para o almoço. Eu, mesmo sem destino, já era arredio com os convites, agradeci declinando. Ele entendeu, compreendeu.
Identificando-me, então, como andarilho do mundo, o que me chocou e fascinou, disse que os andarilhos ganhariam mais se tivessem disposição para escalar as montanhas. Nessa hora apontou para uma delas. Falou que, do alto, a solidão é a mesma, mas o silêncio é maior e visão mais ampla. Eu não disse nada mas, no mesmo instante, me convenci que deveria subir ao alto da pequena montanha que o seu indicador indicou.
Quando nos despedíamos o improvável se fez presente. Perguntou meu velho amigo qual era o meu nome, não, meu sobrenome. Ao responder, lancetei seus olhos, dos quais escorreram, não, jorraram lágrimas.
Surpreendeu-me o velhinho explicando que, agora sim, nosso encontro fazia sentido, pois sua maior perda durante a guerra tinha sido o seu grande amigo Molon.
Subi com sacrifício aquela montanha. Lembro-me da fadiga e dos pedaços de gelo que mataram a minha sede.
Lembro-me do menor ruído que já não ouvi e de uma visão que, em sua amplitude, tornou invisível, naquele momento, meu mais querido amigo.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
O Livro das Trapaças Profissionais
Esses dias tive outra idéia para outro livro. Como provavelmente não vou escrever esse também, resolvi divulgar o mote para que alguém mais empreendedor o faça. Vou gostar se encontrar o livro em alguma livraria. É claro que vou lamentar também minha própria falta de expediente. Além disso vou fantasiar sobre o êxito obtido pelo autor e sobre minha anônima responsabilidade em projeto de tão grande sucesso. Talvez veja reforçada assim a tremenda conspiração arquitetada pelo universo apenas para o meu fracasso. Na verdade vou é odiar ver mais um dos meus planos brilhantes gerando incontáveis dividendos a pessoas menos inspiradas do que eu. Divulgo mesmo assim. Pelo menos angario cúmplices para, quando chegar o infortúnio, me consolar com alguém dizendo: "mas você não registrou a idéia? Não dá para processar?".
O livro que faria seria assim: entrevisto profissionais de diversas áreas, do pedreiro ao engenheiro renomado; da auxiliar de enfermagem ao cirurgião experimentado; do estagiário ao dono do escritório de advocacia; do foca ao editor chefe; do bedel ao diretor; do cozinheiro ao chef e assim por diante. Garanto absoluta confidencialidade. Pergunto a cada um deles sobre os truques e trapaças da profissão para ganhar mais do que o merecido e para trabalhar menos do que o necessário. Convido meu parceiro - no sentido do Velho Oeste, não no atual -, Jo Feveriero, para ilustrar as situações. Confecciono então o Primeiro Guia Ilustrado da Picaretagem Profissional.
Meu propósito com isso não é obviamente o de iniciar neófitos profissionais nas vantagens delinquentes da sua profissão. Aliás, tenho absoluta certeza de que não será necessário o livro para isso. Poucos dias de trabalho são já suficientes para descortinar esse mundo sedutor ao mais ingênuo dos trabalhadores. Aos sedentos de saber desse tipo, a transmissão de conhecimento se dá pelo simples contato.
Minha intenção, ao contrário, é a de criar o verdadeiro Código de Defesa do Consumidor. Quem sabe a diferença entre o ruído do rolamento danificado e o de um prego no pneu atritando com o asfalto? Tudo bem, essa é fácil. Mas quem sabe se o azeite utilizado é mesmo extra-virgem? Ou que aquele catéter foi mesmo necessário à intervenção cirúrgica? Ou ainda que o ralo vai entupir de novo se a conexão não for trocada? Se soubéssemos de tudo isso resolveríamos os problemas sozinhos, sem recorrer aos profissionais. Muita gente, pelo medo das trapaças, tem tentado fazer isso, mas o desgaste acaba sendo maior.
Aos interessados no projeto, garanto que por conta da demanda, o Primeiro Guia Ilustrado da Picaretagem Profissional vai ser um sucesso de público e crítica. Se for feito em papel couchet, letras grandes para dar volume e com capa dura, dá para cobrar pelo menos 40% mais caro. Ilustrando com bancos de imagem e contratando estudantes de jornalismo para as entrevistas, é só dar um "tapinha" e em 45 dias sai da gráfica. Se tiver contato na produção da Ana Maria Braga então, pronto! Vive-se de direitos autorais, tornando-se celebridade em 50 dias. Uma boa agência de promoção pode achar divertido e útil mostrar "coerência" contando todo esse processo na apresentação da segunda edição. Vale a pena confiar, os caras manjam sobre o gosto do público.
Lembre-se, contudo, que essa idéia é minha. Eu pensei em tudo isso antes! Se você se apropriar dela ou vir o Guia na vitrine da Cultura, ou fará parte da nojenta conspiração, ou será testemunha da minha incompreendida genialidade.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Inocentes (in) úteis, por favor não encaminhem!

Algumas pessoas, como eu, ainda conseguem compreender a política como uma coisa séria e grave. Não digo que seja um jogo limpo ou honesto, não mesmo, mas entendo que gostemos ou não da forma como é praticada, a política traz consequências que impactam concretamente nossas vidas. Percebo, contudo, que para um grande contingente de pessoas as eleições, coligações, candidatos e discursos políticos não são diferentes dos casos extra-conjugais de celebridades, dos lances polêmicos do futebol e das piadas sem graça do dia a dia. Tudo serve para entreter e desviar os indivíduos da árdua e, impossível para alguns, tarefa de pensar autonomamente - como sempre deve ser o pensar - a respeito da responsabilidade de cada um sobre a própria vida e sobre a sociedade em que vivemos. Nesse sentido, quem não é inocente e nem parvo, no meu entender, deveria agir com o mínimo de atenção para com as questões políticas. Mais ainda para com o papel que desempenha em sua dinâmica ao se prestar a determinados serviços.
Digo tudo isso tendo em mente uma moda bastante em voga nesses tempos de internet e de eleições. Vira e mexe, chega à caixa postal um e-mail "encaminhado" contendo falas descontextualizadas; ironias preconceituosas ou mentiras deslavadas, quase sempre muito mal escritas, sobre algum candidato. Até aí, nenhum problema, a democracia pressupõe liberdade inclusive de má expressão e, suponho assim, de "encaminhamento" também. Minha questão surge quando verifico que o encaminhador é alguém que obviamente tem o meu e-mail e que, supostamente, goza de alguma das modalidades da minha simpatia, afinal não me chegam tais mensagens das Casas Bahia.
Impossível conter um certo desapontamento. Se o entusiasta da bobagem é um militante, posso até compreender que no afã de ajudar seu candidato compactue com esses métodos baixos e despolitizantes. Compreendo, mas me desaponto. Acontece que não acredito que as mensagens sejam encaminhadas por militantes convictos de sua baixeja. Nesse caso, apenas me desaponto. Questiono, automaticamente, ou a inteligência, ou a idoneidade daquele que tem meu endereço em sua lista. Às vezes questiono ambos e gostaria que meu nome não estivesse lá. Não é pelo conteúdo da mensagem que acabei lendo, mas pela constatação de que o sujeito é mais um dos que não entendem a complexidade da política, não entende que está prestando um desserviço e, pior, não entende que eu sou um dos que entende tudo isso. Burrice ou inocência que minha vaidade intelectual tende a não perdoar. Resultado: "bode" de alguém que eu nem conheço direito, ou às vezes conheço.
Peço, então, que você olhe se estou em sua lista cada vez que for encaminhar um desses e-mails políticos sobre o qual não pensou detidamente a respeito.
A divergência ideológica não me faz desprezar pessoas, mas sua pobreza de espírito sim. Não sou cristão.
Não que o meu desprezo signifique ou não signifique muito. Mas acho que outras pessoas mais significativas podem pensar de forma parecida.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Limpos e Malvados
Olhando os muros autorizados da cidade, as roupas de grife das pessoas, os comerciais de tv e as revistas das bancas de jornal noto que a sujeira e a descompostura adiquiriram valor estético. Vale dizer que o sujo, o mal enjambrado e o descomposto são hoje "bonitos". Desnecessário dizer que meu estranhamento está baseado em valores estéticos outros, de outro tempo também. Se reparo, comparo, nem que não saiba com o quê. Nesse caso sei, nem por isso valoro ou julgo, ainda que os adjetivos usados digam o contrário. São os meus limites de expressão.
Muita gente abomina essa nova estética. Muita gente acha estranho que alguém possa abominar aquilo que parece tão natural. Para esses, arcaica e abominável deve ser a referência do abominador.
Pois bem, mas não é desse dissenso que quero tratar. Posiciono-me no caso, porém, confessando meu razoável apreço pelo que hoje é: nunca gostei muito mesmo de pentear os cabelos, mas gosto do meu blazer de tweed. Sinto-me portanto, mais à vontade por poder praticar ambos sem causar tanto espanto. Essa licensa social é um mérito do presente.
Estou incomodado com outra questão. Desconfio que a "sujeira" estética desse tempo seja um truque. Um truque para disfarçar a sujeira natural e, portanto, inerente ao ser humano. Mais do que isso, uma tentativa de disciplinar aquilo que não pode ser disciplinado. Mais ainda, uma tentativa desesperada de fugir de nossa inclinação natural, também, ao sombrio, ao feio e ao sujo. Ao que nos vicia, degrada e mata. E ainda assim nos agrada.
Essa desconfiança vem do seguinte: com explicar que a mesma sociedade que vende kits de dreadlocks em cabeleireiros, piercings em botiques, grafites em galerias, batiks e roupas rasgadas em passarelas, e tatuagens em shopping centers seja tão severa com os carboidratos das comidas; com o asseio do corpo; com a queima de gordura nas academias, e com o veto ao tabaco em qualquer lugar?
O que percebo é um pânico quanto à sujeira que invade o corpo, associado a uma valorização da sujeira que ele pode produzir e/ou ostentar.
Afinal, somos naturalmente um pouco "sujos", ou não? Não me refiro aos nossos caráteres, desses não tenho dúvidas.
A idéia de transformar nossa pulsão de auto-destruição em arte pode parecer bem intencionada, mas será que é mesmo isso? Ou será mais uma ilusão que o dinheiro se proporá a realizar?
Venceremos, mesmo, nossa porção fascinada pela própria intoxicação, com um café sem cafeína e admirando a sujeira só pela vitrine?
Muita gente abomina essa nova estética. Muita gente acha estranho que alguém possa abominar aquilo que parece tão natural. Para esses, arcaica e abominável deve ser a referência do abominador.
Pois bem, mas não é desse dissenso que quero tratar. Posiciono-me no caso, porém, confessando meu razoável apreço pelo que hoje é: nunca gostei muito mesmo de pentear os cabelos, mas gosto do meu blazer de tweed. Sinto-me portanto, mais à vontade por poder praticar ambos sem causar tanto espanto. Essa licensa social é um mérito do presente.
Estou incomodado com outra questão. Desconfio que a "sujeira" estética desse tempo seja um truque. Um truque para disfarçar a sujeira natural e, portanto, inerente ao ser humano. Mais do que isso, uma tentativa de disciplinar aquilo que não pode ser disciplinado. Mais ainda, uma tentativa desesperada de fugir de nossa inclinação natural, também, ao sombrio, ao feio e ao sujo. Ao que nos vicia, degrada e mata. E ainda assim nos agrada.
Essa desconfiança vem do seguinte: com explicar que a mesma sociedade que vende kits de dreadlocks em cabeleireiros, piercings em botiques, grafites em galerias, batiks e roupas rasgadas em passarelas, e tatuagens em shopping centers seja tão severa com os carboidratos das comidas; com o asseio do corpo; com a queima de gordura nas academias, e com o veto ao tabaco em qualquer lugar?
O que percebo é um pânico quanto à sujeira que invade o corpo, associado a uma valorização da sujeira que ele pode produzir e/ou ostentar.
Afinal, somos naturalmente um pouco "sujos", ou não? Não me refiro aos nossos caráteres, desses não tenho dúvidas.
A idéia de transformar nossa pulsão de auto-destruição em arte pode parecer bem intencionada, mas será que é mesmo isso? Ou será mais uma ilusão que o dinheiro se proporá a realizar?
Venceremos, mesmo, nossa porção fascinada pela própria intoxicação, com um café sem cafeína e admirando a sujeira só pela vitrine?
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