terça-feira, 19 de outubro de 2010
Viver é perigoso, escrever também
"Viver é perigoso" como dizia Riobaldo em Grande Sertão: veredas. Ou seria cumpadre dele Quelemém quem dizia? Não sei mais e não vou checar! Ficou para mim como se fosse Riobaldo a dizer e não faz diferença, afinal o próprio personagem viveu enganado até o fim da história. Mas, que viver é perigoso, lá isso é. Escrever também.
É coisura traz coisura que apoquenta o pensar do sujeito de pensar pensante. Desverdades ementirantes que desarretam o caminhar em pé do bicho que faz que vai, num vai, mas num fica de falta de ir. Gôsto que noitece gostoso, manhece dissaboroso, ressegosta dispois, daí foge do se saber gostar. Querência dessabida, sabida e despedida. Tiro que regaça o preá no ricocheteio do trabuco ferrujoso pontado pro jacu de asa abraçosa. Palavra maldizida com doutoragem de bendição. Contra-covardia em noite de festar paziguidão e descoragem de valentar a eniminguisse do excumpadre enimingado.
Viver é perigoso. A contentação de visar visão boa de pessoa apessoada cofessa pecado excomundado. Fiança na fé que volta em recaminho, quando descaminha, desacredita fé vindoura de qualquer outra venitura. Gratidão esperançada, sujeitada e anteagradecida, se negada, desagraça obrigacionamentos graciosos, anônimos e despensados.
Viver é perigoso, escrever também.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Esperar sem enlouquecer
Acordei, uma madrugada dessas, ansioso com o resgate dos mineiros chilenos. Fiquei, como muita gente, bastante aliviado ao saber que tudo estava correndo bem e que, um a um, todos iam sendo trazidos à superfície sãos e salvos. Talvez estivesse me sentindo também um pouco soterrado junto com eles. Em parte por compaixão, solidariedade no sofrimento alheio, em parte pela asfixia própria dos desabamentos nossos de cada dia. Quem é que, vivendo a vida cercado de pessoas, expectativas e forças naturais, não se sente desolado, de vez em quando, num espaço reduzido, sombrio e desprovido, sonhando com uma operação externa de resgate?
Creio que o mais emocianante de todo esse episódio tenha sido perceber que, contrariando vários ensinamentos, às vezes nosso destino e nossa felicidade depende mais da importância que os outros nos conferem, do que das nossas próprias ações. Não recomendo, de forma alguma, levar a vida apostando nisso, perderíamos então nossa ilusão de autodeterminação tão necessária a muitas de nossas realizações. Mas o precedente permite pensar que, em certas circunstâncias, nossa única parcela de colaboração com a própria salvação é o discernimento das próprias limitações e a fibra para resistir um pouco mais. Não falo nem da esperança, mas compreendo a importância dela para nos animar a resistir um pouco mais. Falo apenas daquilo que se pode intentar: compreender a situação e resistir. Esperança e fé, tem-se ou não.
Os mineiros do Chile entenderam logo sua situação e conseguiram resitir. Aqui fora operou-se um milagre, um belo milagre humano! Daqueles que tanto dignificam e justificam nossa humanidade. Voltaire, uma vez, por conta do terremoto que destruiu Lisboa em 1755, subiu ao púpito do parlamento francês para dizer que era contra o terremoto. Foi assim também no Chile, o povo e as autoridades foram contra o desabamento e a favor dos mineiros. Fizeram uso da capacidade humana reunida e da vontade humana de realizar, assumiram os custos inerentes ao trabalho e, simplesmente, resgataram os mineiros. Que coisa linda! É, ou não, muito mais do que andar sobre as águas por puro exibicionismo?
Eresias a parte, lembro que os mineiros saíram salvos por mérito alheio, mas saíram sãos e sobreviveram para sair, por mérito próprio.
Às vezes, apenas esperar confinado, lidando com a escassez e cuidando para manter a sanidade é o mais sábio e digno a fazer, mesmo em catástrofes individuais. A humanidade e o outro são capazes de ser contra aquilo cuja culpa não importa.
Viva Chile!
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Amado leitor
Não sei se é verdade, mas uma vez li em algum lugar que numa entrevista, ao ser perguntado por que é que escrevia, Gabriel Garcia Marques respondeu que escrevia para que seus amigos gostassem ou continuassem gostando dele. Se é mentira, ou se entendi errado, pouco importa, acho que é a mais humilde e sincera confissão que um escritor pode fazer. E, mesmo que a crítica literária julgue uma razão menor para escrever, essa é a minha razão também, vou na cola. Interpreto a possível fala de Garcia Marques de forma que pode parecer menor ainda: escrevo para que aqueles que eu gosto, também gostem de mim; para, quem sabe, ofertar-lhes algum outro motivo de adimiração e, assim, desesperadamente, tentar garantir o necessário afeto. Bobagem, eu sei, pois não se garante afeto. Insegurança, eu sei, pois pessoas resolvidas não mendigam afeto. Prostituição artística, eu sei, pois a arte deve ser livre. Fazer o quê? É assim no meu caso. Se o que escrevo agrada alguém outro, pode ser um bonus. Se desagrada ou é indiferente a quem eu amo, só sigo por disciplina, por teimosia, por lamento, por raiva, ou pela esperança de conseguir recobrar meu fundamental destinatário.
Foi pensando assim, sentindo assim, sendo correspondido assim que começamos esse blog anos atrás e é dessa mesma forma que eu quero continuar com ele. Se houve algum desvio no percurso, peço perdão, foi por puro desalento.
Foi pensando assim, sentindo assim, sendo correspondido assim que começamos esse blog anos atrás e é dessa mesma forma que eu quero continuar com ele. Se houve algum desvio no percurso, peço perdão, foi por puro desalento.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Banco de horas
Já pensou se essa história de banco de horas servisse também para outras coisas mais legais do que o trabalho? Por exemplo: suponha que, a mesma lógica de trabalhar mais hoje para poder não trabalhar algum dia, também valesse para que, ao final da vida e diante da morte, você pudesse descontar tudo que deixou de fazer. Seria assim: deixei 4 anos, oito meses e sete dias de desfrutar a companhia dos amigos; então tenho agora, antes de morrer, direito ao mesmo tempo só para fazer isso. Somando tudo, foram 14 meses e quatro dias sem tempo para brincar com o gato, agora quero esse tempo só para viver com o bichano. Não tive tempo e nem paciência para conviver harmoniozamente com meus pais desde os dezesseis anos; agora terei. Deixei de entender os outros, tentando explicá-los, metadade da minha vida; preciso agora dessa metade de volta. Transei sem muito desfrute setenta por cento das minhas transas, mereço agora gozar intensamente todas as horas desperdiçadas. Deixei de falar, de apreciar, de reconhecer, de rir, de relevar, de admirar e de reconhecer minhas próprias falhas quase toda minha vida, quero então quase toda ela em crédito.
Seria ótimo! Mas esqueça: para a vida não há banco de horas.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Dia de sol
Outro dia, conversando com uma amiga sobre política descobri uma coisa. Assim como atuação de juiz de futebol; clima; engenharia de tráfego; determinação de chefias e outras coisas tantas, a política é um tema sobre o qual temos a mania de falar mal. É mania mesmo, está na cabeça e no discurso, mesmo que não esteja na realidade. Ok, talvez não seja uma mania, mais uma convenção que nos obriga a falar mal, ainda que, se pensarmos bem, não estejamos em total desacordo, ou até, concordemos bastante. É mais ou menos assim: o dia está ensolarado, gostamos de sol, mas quando falamos com alguém a respeito, concorda-se que o calor é injusto e insuportável.
No caso da política fica assim: antes não votávamos e era péssimo; passamos a poder escolher os menos ruins e era péssimo; evoluímos para o poder de escolha entre os que gostaríamos e os que não gostaríamos e continuou sendo péssimo; chegamos ao momento em que, dado o avanço das instituições, estamos preservados de erros crassos em nossas escolhas e ainda assim é péssimo.
Como diz minha mulher, escolher hoje um presidente entre Dilma, Serra, Marina e Plínio, não é a mesma coisa que não escolher; não se compara a quase escolher entre Maluf e Tancredo e não é tão definitivo quanto escolher entre Collor e Lula. Por que é, então, que no discurso político das pessoas tudo parece tão igual, ou seja, tão péssimo? Será apenas força da tradição, como com o juiz de futebol, com o chefe e com a sogra?
Talvez exista mesmo, para a maioria, alguma dissociação grave entre o que é, de fato, a política e o que se projeta nela idealmente, seja lá o que se projete. Não preciso mensurar precisamente, mas é inegável que, independente de autorias, as coisas tem melhorado na política brasileira nas últimas décadas: a corrupção aflora com mais facilidade; os maiores escalabros recebem alguma punição; os anseios populares são minimamente levados em conta até pelos mais bisonhos candidatos; os políticos precisam prestar mais contas de suas políticas; ética, decoro e transparência são valores um pouco mais valorados; políticos buscam novos meios para se comunicar com novos públicos; alguns retrocessos são unanimente inadimissíveis.
Como costumam dizer sempre candidatos de situação: "não é suficiente, ainda tem muito que melhorar." Mas é estranho que as melhorias constatáveis não animem as pessoas a encarar e a discursar mais positivamente sobre política. O péssimo de hoje não é tão péssimo quanto o de ontem, logo hoje é um pouco melhor que ontem.
Pode ser que o ideal dessas pessoas esteja ainda muito distante do real, ótimo, caminhemos então para isso conscientes e exultantes a cada passo dado. Mas também pode ser que não haja ideal algum, que seja apenas o vício de falar mal da política e dos políticos. Nesse caso, descupem-me, mas não sinto tanto frio, ontem estava mais gelado e vou à praia assim que esquentar mais.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Tragédia de Acertos
Ilustração: Jo Fevereiro
Um dia desses andava pela calçada da Paulista ao lado do MASP quando aconteceu aquilo que sempre acontece: vinha um senhor em minha direção, ou ia eu em direção a ele; pendi para um lado que foi o mesmo lado para o qual ele pendeu, ou vice-versa; pendi, então para o outro, no mesmo instante em que lhe ocorreu a mesma solução para evitar o choque, mas também pode ter sido o contrário; tivemos, por fim, que parar frente a frente. A acareação durou alguns instantes.
De minha parte, toda vez que isso ocorre, tenho a mesma curiosa reação: tenho vontade de rir e penso que acabei de angarear um cúmplice anônimo para nos divertirmos juntos com essa pequena comédia de erros das quais o cotidiano está repleta: todos estavam certos, mas deu errado. Nenhuma consequência grave, apenas a constatação de que ambos erramos, tentando acertar.
Qual o quê! Fui vítima de uma tremenda descompostura! O sujeito olhou-me com ódio e rosnou algo como: "porra, você tem que passar pela direita!". Fiquei chocado. Enquanto ele se desvencilhava para continuar apressado o seu caminho, só consegui perguntar, meio sem graça: "mas que regra é essa?". Ele nem ouviu, seguiu blasfemando.
Continuei o meu caminho até a Augusta. Durante o trajeto fui, um pouco incomodado e triste, pensando e sentindo várias coisas.
Pensei primeiro que talvez ele tivesse razão e que eu não conhecia as normas corretas da caminhada. Já tinha aprendido no metro de Moscou a permanecer à direita na escada rolante se não estivesse com pressa, mas ignorava semelhante código para as calçadas paulistanas. Podia fazer algum sentido, mesmo que eu sequer tivesse entendido exatamente o código violado. Será que eu preciso andar sempre à direita, tanto a pé quanto de carro? Depois pensei que não, que nosso trânsito pedestre ainda não estava tão regulamentado. Que horror se um dia estiver, pensei no Metrópolis do autríaco Fritz Lang. Concluí que se tratava, então, de uma lei pessoal, dessas que se inventa na hora para legitimar uma conduta qualquer.
Esqueci o fato, meu incômodo foi diminuindo na medida em que ia andando e pensando nisso, no quanto inventamos regras que só valem para algumas situações e só para nós mesmos. Pensando no quanto somos meio covardes para encarar a vida quando não há regras, nem justiça e nem injustiça, só a vida mesma com suas fatalidades. No medo que temos de estar errados e na nossa capacidade de inventar o certo para tornar acertadas nossas ações ao nosso próprio olhar.
Cheguei ao meu destino convicto de que assim fica difícil o convívio: se todo mundo está correto em tudo que faz, aquilo que poderia ser uma comédia de erros, ou vira tragédia de acertos, ou vira farsa.
Tenho um amigo que diz que nunca conheceu um sócio pilantra que lesou o outro sócio, só conhece os sócios injustiçados e trapaceados que faliram vitimas do vilipendio do outro sócio. Onde estão os sócios lesivos então? Será que não foi apenas e simplesmente mais um negócio da vida que deu errado?
Será impossível viver sem culpa e sem culpar alguém? Não seria o equívoco, às vezes, como o chover, um verbo sem sujeito? Algo para tão somente contemplar, quem sabe para sorrir e esperar passar, pela direita ou pela esquerda?
sábado, 28 de agosto de 2010
Abrir mão da vida para não crescer
Ilustração: Jo Fevereiro
Acredito mesmo que a adolescência seja o estágio maravilhoso em que ainda temos o direito de achar que a vida pode ser perfeita. Por isso é tão difícil abandoná-la. Não falo de cronologia, falo de maturação psíquica.
Que horror ter que encarar as imperfeições das pessoas perfeitas; as absurdas falhas das mais belas ideologias; as inconsistências estruturais nos melhores projetos; o ardor do trabalho inerente a qualquer realização; os conflitos em que somos lançados quando só queríamos a paz; a necessidade de mudar quando desejamos simplesmente permanecer; obrigações para quem só se sente no direito; os próprios erros, quando ainda só o resto é que parece estar errado.
Quão impossível pode ser uma vida feliz em tão adversas condições. Amadurecer é, sem dúvida, uma proposta indescente!
Deve ser por isso que muita gente insiste em não amadurecer. Entre abandonar as ilusões para lidar com o mundo real e evocar as mais elevadas e transcendentes razões para continuar onde se está, a segunda possibilidade, sem dúvida, é a melhor. Ela ainda nos eleva acima dos outros, tão racionais e pragmáticos. Além disso, sempre haverá por perto outros adolescentes, de qualque idade, reforçando nosso asco por esse mundo tão careta, belicoso e equivocado.
Garanto: há grandes desfrutes que só o outro lado propicia, e revelo que os seus melhores são para os que conseguem cruzar o caminho sem perder a ternura pela vida, que é o melhor legado que a adolescência pode deixar. Quem passa sem se abandonar por completo encontra outras formas de felicidade.
O tempo é inexorável, ele vai passar, quer queiramos ou não. Capazes de perceber, ou não, ele exigirá de nós que sejamos diferentes em cada fase: crianças, adolescentes, adultos e velhos; filhos, perspectivas, pais e avós. Tudo isso se tivermos a sorte de continuarmos vivos.
Que dádiva se tivermos a possibilidade de seguir esse trajeto com uma companhia que entenda a vida como um caminho e que tenha um passo que seja possível acompanhar sem que a percamos de vista.
Que triste se não.
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