sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As paixões e os valores

Não vou entrar no mérito freudiano do que pode significar querer para caralho alguma coisa. Nem por isso me sinto imune às possíveis implicações que isso, ou a falta disso, podem vir a ter na elaboração de um diagnóstico a meu respeito. Mas às vezes faz falta querer alguma coisa para caralho.
Estou simplesmente me apropriando da expressão consagrada para discutir a falta de um querer cego e, ao mesmo tempo, motivador, impulsinador do agir de um indivíduo.
Considero que esse tal querer cego pode ser tanto uma paixão quanto um valor e não descarto que ambos possam se contraditar. Aí começa o problema. As paixões são ambivalentes: malucas e nocivas ou construtivas e deliciosas fazem com que nossos corpos se movam, seja em direção à dor ou ao regozijo. Nunca se sabe. Mas, de alguma forma, há negociação entre nós e elas, temos algum recurso, menor ou maior, para tentar discipliná-las. Talvez sejam um querer mais externo a nós mesmos. Já com os valores é diferente, eles são fundamentais, tragam-nos alegrias ou infortúnios, nos embates do dia-a-dia, deles não nos desviamos sem prestar contas a nós mesmos.
As paixões nos fazem mover, quase sempre, com impeto e agilidade; os valores, quase sempre, com cuidado e parcimônia. Às vezes os valores também nos fazem mover com ímpeto e vice-versa.
A questão é: tanto as paixões quanto os valores podem ser conscientes ou inconscintes. Creio, contudo, que por mais estranho que pareça, tendemos a ser mais conscientes com as paixões do que com os valores que carregamos, ainda que não sejamos muito conscientes quanto as nossas paixões. Ou seja: sobre nossas paixões, ainda somos capazes de alguma malícia, quando somos; com os valores não.
Bem, mas como disse antes, considero as paixões e os valores como duas categorias do "querer para caralho". Creio que a primeira é mais passível de ser reconhecida por nós mesmos, mas, e a segunda, como reconhecer? A primeira tem sempre motivação externa e determinada, mas e a segunda, qual sua motivação e qual sua devoção?
Talvez, ao contrário do que propus, os valores não sejam simples quereres, mas sim quereres profundos sem querer. Seja como for, sentir a falta disso, é um pouco se perder. Dá uma vontde desesperada de se apaixonar pelos próprios valores. Mas para isso é preciso transformá-los em objeto externo, pois só assim seremos capazes de nos apaixonar por eles. Volto então à estaca zero: e se não sei deles?
Estou me interrogando sobre os meus valores, enquanto isso resisto às paixões, delas não conheço sempre os resultados, claro que não, mas sei um pouco mais sobre como operam em mim.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Boa Esperança


Ilustração: Jo Fevereiro

 Entendi! Entendi, esses dias, o que é a esperança. Senti a própria e me senti tabém um pouco ridículo de ter sempre usado a palavra sem saber, mesmo, o que é que ela significava. Agora sei e tento compartilhar.
É mais ou menos assim: eu quero muito que aconteça, mas não sei bem porque... todos os indícios são de que não vai acontecer... eu espero, mas também não sei porque... de repente, começa a acontecer e eu entendo, finalmente, porque é que eu queria e esperava. Fortaleço-me, então.
Todas as metáforas vulgares são corretas: "a última que morre, a luz no final do túnel...". É isso mesmo: parecia que não tinha mais jeito e começa a ter.
Entendi, támbém, que a esperança vale para todos os desacertos circunstanciais: conflitos em relações profissionais; descompassos familiares; frustrações contemporâneas e investimentos afetivos profundos.
Não vale para projetos idiotas; fantasias de infância; fatos concretos do cotidiano e nem para paixões amorosas equivocadas. Pelo menos esses não me parecem objetos da boa esperança, dessa que descobri e tento esclarecer.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Apontamentos não cínicos sobre a mentira


Ilustração: Jo Fevereiro

Quando fui catequizado, ensinaram que um dos dez mandamentos de deus era "não levantar falsos testemunhos", lembro que simplificavam o regulamento dizendo que tratava-se de "não mentir", mentira! Falso testemunho é uma coisa, mentira é outra. Etimologicamente testemunhar tem a ver com comprovar, o prefixo tem a ver também com testículos, como soube recentemente (prova de masculinidade). Não há nos mandamentos nenhuma proibição à mentira, até porque ela seria inócua. Não que as outras não sejam, mas essa seria inócua demais. Não é possível manter-se absolutamente fiel à verdade, seja porque não queremos; porque não conseguimos, ou simplesmente porque não há verdade.
Resolvi registrar aqui algumas ideias sobre a mentira que talvez desenvolva numa próxima vida, nessa provavelmente não terei tempo.
Acho que existem mentiras de tipologias diferentes, algumas inúteis, outras nocivas, outras indiferentes, outras inevitáveis... Poderia classificá-las mais ou menos assim: a) mentiras que reforçam minhas fantasias sobre mim mesmo; b) mentiras que reforçam minhas fantasias sobre os outros; c) mentiras que, suponho, reforçam as fantasias dos outros sobre mim e d) mentiras que, suponho, reforçam as fantasias dos outros sobre os outros e sobre eles mesmos. Exemplificando respectiva e sumariamente: a) como sou bondoso, não posso ter tido esse pensamento maldoso, então não tive mesmo; b) Como as pessoas são bondosas, essa pessoa não pode ter sido maldosa, então não foi mesmo; c) Como suponho que o outro me tem como bondoso, não posso demonstar que tive esse pensamento maldoso, então não tive mesmo, e d) Como suponho que o outro tem os outros por bondosos, os outros não podem ter sido maldosos, então não foram mesmo.
Desses quatro tipos de mentiras, acredito que o primeiro seja o mais trivial, tão trivial que o próprio sujeito não se reconheceria mentiroso nem sob tortura. O segundo também é parecido, tão comum que se confunde com a própria visão de mundo do sujeito, tratam-se de mentiras coletivas em que o mentiroso nunca está só. O terceiro exige um pouco mais de malícia e costuma trazer mais dividendos instantâneos, com o tempo soi gerar conflitos internos e muito provavelmente, ao final, um balanço negativo sobre a vida que se viveu.
O quarto tipo, de todos, me parece o mais complexo e também aquele sobre o qual não encontro solução na verdade. Ou melhor, a verdade não parece eficaz para contraditá-lo. Lembre-se que refiro-me aqui à "mentiras que, suponho, reforçam as fantasias dos outros sobre os outros e sobre eles mesmos". Nesse caso, enquanto o outro não quer encontrar a saída para o labirinto dos enganos, oferecer-lhe a realidade é estar disposto a ser inconveniente, desprovido de sensibilidade, delirante, insuportável e, obviamente, mentiroso.
São só apontamentos não cínicos sobre o tema.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Os voos de Ícaro

Estivemos em Brasília no último fim de semana. Em sua primeira viagem de avião, aos oito meses de idade, a Leila conquistou o público: dormiu quando o choro de criança aterrorizaria os já nervosos passageiros e circulou pelo corredor no meu colo, risonha e expressiva quando o tédio começava a tomar a aeronave.
Era só uma visita de família. Acabou sendo muito mais, inclusive nesse aspecto. Partilhamos experiências e desejos, trocamos angústias, confissões e preciosas receitas culinárias.
No domingo obtive licença e incentivo para visitar, só, mais um velho amigo desencontrado.
Ícaro, uma vez, quando eu tentava embarcar de Havana a São Paulo, com excesso de bagagem, estava atrás de mim na fila e salvou minha pele ao saber que eu estava contrabandeando apenas livros e alguns charutos. Fiquei agradecido e reconheci sua autoridade perante a segurança cubana. Trocamos telefones e ficamos amigos. Só depois soube que se tratava do polêmico engenheiro que soprou ao Lúcio Costa e ao Oscar Niemeyer a extravagante ideia de que a capital do Brasil deveria ser projetada como um avião. Isso não aparece nos registros históricos, talvez tenha acontecido numa mesa de bar. Mas não desconsidero a possibilidade de que a narrativa seja apenas fruto da inquieta imaginação de alguém que carrega a sina de ter o nome Ícaro.
O alcóolico e genial engenheiro Ícaro, de 93 anos de idade, recebeu-me, em sua bela casa do Lago Sul, como a um viajante dos tempos. Fez-me beber mais licor do que a minha licença autorizava. Falou-me da Flip, de Pitágoras, de realidade aumentada e do Calendário Maia. Depois disso conduziu-me a um porão, que é sua oficina, onde prometeu-me uma experiência inenarrável. Não acreditei. Mas estava enganado.
O que tento descrever, como anunciado, não é mesmo possível de narrar, mas insisto mesmo assim:
Ícaro me levou a uma câmera contígua a sua oficina. Entrei numa sala meio esférica e toda branca, onde só havia um grande e maravilhoso tapete iraniano Nahin azul. Ele pediu para que eu me sentasse no tapete e esperasse. Fiz como ele mandou. Logo, como num cinema 360 graus, em volta de mim apareceram imagens da catedral de Santa Sofia e da Mesquita Azul de Istambul. Na sequência, o tapete em que estava sentado começou a se mover para cima como se num elevador. As imagens tornaram-se dinâmicas e o tapete também. Perdi a sensação da gravidade e o tapete começou literalmente a voar por paisagens indescritíveis, não sei se do presente, do passado ou do futuro. Em pouco tempo senti-me como Aladim sobre o tapete mágico. Voei sobre desertos desconhecidos e metrópoles contemporâneas. Não fui capaz de perceber jogos de imagens projetadas e/ou engenharias hidráulicas. Voei como sempre quis voar, sobre um tapete como o das mil e umas noites. Melhor do que se tivesse asas.
Voei, finalmente sobre a Brasília e o Brasil de hoje e sobre eles mesmos em construção. Voei sobre os outros e sobre mim mesmo.
Não soube esclarecer, depois, ao Ícaro, qual foi minha experiência.
Obrigado querido Ícaro.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Gestos Impensados

Não sei porque ainda prezo tanto a razão. Não que ela não me ajude, não que não me salve muitas vezes. O problema é que devotar-se incondicionalmente a ela pode ser tão automático e nocivo quanto acender mais esse cigarro. Não é sempre que um, ou outro, nos traz desfrute. Muitas vezes é exatamente o contrário: vem a angústia e vem a tosse; vem o arrependimento e a dor de cabeça.
O Renascimento e o Iluminismo podem ser os grandes responsáveis por essa obsessão que temos alguns de nós pela racionalização. Mas o fato de não sermos tantos com esse vício tem sua parcela de responsabilidade. Fazer parte de um time reduzido também exerce lá o seu fascínio. Se é para ser doente, é bem mais romântico uma boa tuberculose, do que um leve princípio de pneumonia.
A história, contudo, pode explicar sem necessariamente nos esclarecer. O sintoma pode ser fruto não da influência de Descartes, mas da nossa particular insegurança quanto às outras formas de conhecer o mundo, o que faz da razão um distinto, indispensável e legítimo aliado. É como se preferíssemos os certos equívocos do pensamento, aos riscos - para o bem e para o mal - da nossa incompreensível "intuição".
Uma vez, num café em São Petesburgo na Rússia, numa das Noites Brancas descritas por Dostoievisk, um grande amigo me disse: "já reparou que, por mais que planejemos, as coisas sempre saem diferentes?" Não, eu ainda não tinha reparado. Só agora começo a reparar.
Fazer o que eu não tinha pensado; falar o que eu não tinha ensaiado, com quem eu não tinha elegido; vestir o que eu não tinha combinado, para ir aonde eu não sabia; viver, enfim, o que eu não tinha roteirizado, tudo isso também funciona. Pelo menos, tanto quanto o contrário. Ou seja, a vida não está nem aí para a minha programação, mesmo que de vez em quando coincida com ela!
Em resumo, enquanto acendo outro cigarro, desejo me livrar do vício de pensar em tudo. Um gesto impensado, agora sei, pode mesmo tornar minha vida muito mais gostosa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Abracadabra

As palavras já foram consideradas mágicas, quer dizer, detentoras de poderes mágicos. Em agrupamentos humanos remotos, pessoas economizavam até na divulgação de seus próprios nomes para evitar feitiços e sortilégios. Sob o efeito da palavra ouvida, guerreiros já provocaram e finalizaram guerras. Até hoje ainda persistem truques para dizer o nome de um morto sem correr risco de ônus mágico, "que deus o tenha". "Saúde" anida se profere gratuitamente a quem espirra.
Por alguma razão, quem sabe a profusão de palavras más, ou talvez a melancolia de quem costuma ser rigoroso demais consigo mesmo, estamos mais suscetíveis, em nossos tempos, à maldição do que à bendição. Ecoa mais nos nossos ouvidos e corações a injúria e a ofensa, do que o elogio e as palvras de afeto, perdão e compreensão.
Lembramos no nosso dia da única pessoa que não respondeu ao nosso bom dia e de nenhuma das outras que o retribuíram com sorriso. Da que nos sonegou palavra e não das que nos agradeceram por qualquer pequena gentileza.
Sobrepesamos a crítica, mas o reconhecimento não movimenta os pratos da balança. Ficamos incomodados com o que talvez seja uma ironia maldosa, mas não nos permeia com a mesma facilidade uma evidente e bondosa homenagem. Não nos casamos mais cada vez que ouvimos "eu te amo", mas estamos prontos a nos separarar ao primeiro "tenho dúvidas quanto ao meu amor".
Fica então a seguinte pergunta: se as palavras ainda carregam magia consigo - e acho que carregam sim -, porque não apreciar mais e melhor os seus bons encantos?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma boa lembrança do alto

Uma vez acordei numa cabine de trem no Vale da Osta na Itália e me deparei com um senhor de chapéu e bengala sentado no banco da minha frente. Tomamos, juntos, um mágico café solúvel e ficamos logo grandes amigos. Ele me falou de sua participação na Primeira Guerra, do Patuá, dialeto da região, e me explicou sobre os telhados das casas. Não me lembro bem da explicação, mas não esqueço do reflexo do sol nascente na neve que se depositava naqueles telhados, pareciam casas de maçapão banhadas com calda de caramelo. Eu também estava nascendo, tinha só 18 anos.
Descemos, ambos, em Courmayer - acho que era esse o nome da vila -, eu não tinha destino, ele visitava uma filha. Ele me convidou para o almoço. Eu, mesmo sem destino, já era arredio com os convites, agradeci declinando. Ele entendeu, compreendeu.
Identificando-me, então, como andarilho do mundo, o que me chocou e fascinou, disse que os andarilhos ganhariam mais se tivessem disposição para escalar as montanhas. Nessa hora apontou para uma delas. Falou que, do alto, a solidão é a mesma, mas o silêncio é maior e visão mais ampla. Eu não disse nada mas, no mesmo instante, me convenci que deveria subir ao alto da pequena montanha que o seu indicador indicou.
Quando nos despedíamos o improvável se fez presente. Perguntou meu velho amigo qual era o meu nome, não, meu sobrenome. Ao responder, lancetei seus olhos, dos quais escorreram, não, jorraram lágrimas.
Surpreendeu-me o velhinho explicando que, agora sim, nosso encontro fazia sentido, pois sua maior perda durante a guerra tinha sido o seu grande amigo Molon.
Subi com sacrifício aquela montanha. Lembro-me da fadiga e dos pedaços de gelo que mataram a minha sede.
Lembro-me do menor ruído que já não ouvi e de uma visão que, em sua amplitude, tornou invisível, naquele momento, meu mais querido amigo.